"Nossa espécie é feita de tal maneira, que aqueles que se contentam com caminhos já percorridos atiram pedras aos que ensinam caminhos novos. Foram necessários séculos para se conhecer uma parte das leis da Natureza; mas basta um dia para o sábio conhecer os deveres do homem." (VOLTAIRE, Dicionário Filosófico)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A religião do filósofo ignorante

Alguém disse que Voltaire foi o "inventor do Iluminismo e da tolerância". Exagero? Talvez sim. Talvez não. Temos de ser iluminados e tolerantes nessas questões, mesmo para fazer honra aos ingleses, especialmente John Locke, precursor da democracia liberal. Seja como for, o fato é que Voltaire ainda permanece como grande vítima da intolerância: é acusado de escritor pelos "filósofos" e de filósofo pelos "escritores". Quem ainda possa alimentar ideias errôneas sobre ele, mudará de opinião quando ler "O Filósofo Ignorante" (1734) onde Voltaire afirma: "posso não lhes ter ensinado nada, mas o certo é que me anuncio como um ignorante (...) mas, em vista disso será necessário que permaneçamos inertes na escuridão? Ou será imperioso acendermos a fogueira na qual a inveja e a calúnia acenderão seus archotes? A verdade não se deve ocultar diante desses fantasmas assim como nenhum homem deverá se privar da comida com medo de ser envenenado".
Voltaire, por
Béat de Hennezel, 1766
Outro livro esclarecedor sobre o pensamento de Voltaire é o "Tratado Sobre a Tolerância" (1762) escrito a propósito da morte de Jean Calas. Na noite de 13 para 14 de outubro de 1761, Marc-Antoine Calas foi encontrado estrangulado no andar térreo de sua casa. As autoridades conduziram o inquérito sob influencias e rumores das facções religiosas que atribuíam o crime à fúria do pai da vítima, Jean Calas, devido à conversão do filho ao catolicismo. Em 18 de novembro do mesmo ano, Jean Calas e seus familiares foram condenados. Eles alegaram inocência apelando ao Parlamento de Toulouse. O Parlamento, por 8 votos a 5, condenou apenas Jean Calas e livrou os demais acusados. Jean Calas foi executado em 10 de março de 1762. O curioso - visto com olhos de hoje - foi a rapidez da justiça quando se tratou de aplicar a lei às discórdias entre facções ditas "cristãs": entre o estrangulamento de Marc-Antoine e a morte por sentença de seu pai, transcorreram apenas cinco meses! Voltaire analisou o caso e concluiu pelo fanatismo religioso. "Estou fora de mim e me interesso pelo caso como homem e como filósofo - disse na carta enviada ao Cardeal de Bernis - quero saber de que lado está este horror só mesmo atribuído ao fanatismo." Voltaire questionou todos os pontos e provas havidos no processo. E logo partiu para a inconsistência da sentença, definitivamente convencido da inocência de Jean Calas. Esta é a origem do livro "Tratado Sobre a Tolerância", obra infelizmente pouco conhecida do público brasileiro (Editora Martins Fontes, 2001 - tradução de Antônio de Pádua Danesi).
Do ponto de vista religioso, não podemos acusar Voltaire de ser "isso ou aquilo". Sendo Iluminista, ele era um deísta. O deísmo admite a possibilidade de um "Deus criador", mas não considera a intervenção desse mesmo Deus no mundo regido apenas pelas leis naturais. Deus, segundo essa visão, poderia mesmo ter "criado o mundo em seis dias", mas... "descansara no sétimo", isto é - entregou o mundo à administração das leis naturais e ao arbítrio humano. Numa passagem esclarecedora da novela "Candide, ou l'Optimisme" (1759) o herói da história e seu amigo Cacambo chegam ao Eldorado onde são recebidos por um sábio ancião que os convida para jantar. Nesse encontro “a conversa foi longa e discutiram sobre as formas de governo, seus costumes, suas mulheres, e sobre as artes. Em certo momento, Candide, que tinha vocação para a metafísica, fez seu amigo Cacambo perguntar ao ancião se no país do Eldorado havia uma religião. O velho enrubesceu um pouco e exclamou: - O quê!, você duvida? Acha que somos ingratos? Cacambo perguntou humildemente qual era a religião do Eldorado. O velho corou de novo: - Será que podem existir duas religiões? Temos, creio eu, a religião de todo o mundo: adoramos a Deus, desde a manhã até a noite. Não oramos, pois nada temos para pedir, Deus nos deu tudo de que precisamos. Por isso só agradecemos, sempre.Candide manifestou a curiosidade de conhecer os sacerdotes, e perguntou onde eles estavam. O bom velho sorriu e acrescentou: - Todos nós somos sacerdotes e cantamos hinos de ação de graças todas as manhãs." (trecho do capítulo XVIII de 'Cândido, ou o Otimismo', tradução livre de minha autoria). No final da novela, Candide relembra toda a sua vida de aventuras, poucas alegrias e muitos infortúnios. Pondera com o mestre Pangloss, ferrenho otimista, sobre os eventos contraditórios deste que é o melhor dos mundos possíveis. Vai nesse passo todo o capítulo XXX. De repente, interrompendo quaisquer considerações filosóficas, o herói declara, à moda de um zen-budista, encerrando a história com a frase: "Está bem, então vamos cultivar nosso jardim" (...il faut cultiver notre jardin...)



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