Alguém disse que Voltaire foi o "inventor do Iluminismo e da tolerância". Exagero? Talvez sim. Talvez não. Temos de ser iluminados e tolerantes nessas questões, mesmo para fazer honra aos ingleses, especialmente John Locke, precursor da democracia liberal. Seja como for, o fato é que Voltaire ainda permanece como grande vítima da intolerância: é acusado de escritor pelos "filósofos" e de filósofo pelos "escritores". Quem ainda possa alimentar ideias errôneas sobre ele, mudará de opinião quando ler "O Filósofo Ignorante" (1734) onde Voltaire afirma: "posso não lhes ter ensinado nada, mas o certo é que me anuncio como um ignorante (...) mas, em vista disso será necessário que permaneçamos inertes na escuridão? Ou será imperioso acendermos a fogueira na qual a inveja e a calúnia acenderão seus archotes? A verdade não se deve ocultar diante desses fantasmas assim como nenhum homem deverá se privar da comida com medo de ser envenenado".
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Voltaire, por Béat de Hennezel, 1766 |
Outro livro esclarecedor sobre o pensamento de Voltaire é o "Tratado Sobre a Tolerância" (1762) escrito a propósito da morte de Jean Calas. Na noite de 13 para 14 de outubro de 1761, Marc-Antoine Calas foi encontrado estrangulado no andar térreo de sua casa. As autoridades conduziram o inquérito sob influencias e rumores das facções religiosas que atribuíam o crime à fúria do pai da vítima, Jean Calas, devido à conversão do filho ao catolicismo. Em 18 de novembro do mesmo ano, Jean Calas e seus familiares foram condenados. Eles alegaram inocência apelando ao Parlamento de Toulouse. O Parlamento, por 8 votos a 5, condenou apenas Jean Calas e livrou os demais acusados. Jean Calas foi executado em 10 de março de 1762. O curioso - visto com olhos de hoje - foi a rapidez da justiça quando se tratou de aplicar a lei às discórdias entre facções ditas "cristãs": entre o estrangulamento de Marc-Antoine e a morte por sentença de seu pai, transcorreram apenas cinco meses! Voltaire analisou o caso e concluiu pelo fanatismo religioso. "
Estou fora de mim e me interesso pelo caso como homem e como filósofo - disse na carta enviada ao Cardeal de Bernis -
quero saber de que lado está este horror só mesmo atribuído ao fanatismo." Voltaire questionou todos os pontos e provas havidos no processo. E logo partiu para a inconsistência da sentença, definitivamente convencido da inocência de Jean Calas. Esta é a origem do livro "Tratado Sobre a Tolerância", obra infelizmente pouco conhecida do público brasileiro (Editora Martins Fontes, 2001 - tradução de Antônio de Pádua Danesi).
Do ponto de vista religioso, não podemos acusar Voltaire de ser "isso ou aquilo". Sendo Iluminista, ele era um deísta. O deísmo admite a possibilidade de um "Deus criador", mas não considera a intervenção desse mesmo Deus no mundo regido apenas pelas leis naturais. Deus, segundo essa visão, poderia mesmo ter "criado o mundo em seis dias", mas... "descansara no sétimo", isto é - entregou o mundo à administração das leis naturais e ao arbítrio humano. Numa passagem esclarecedora da novela "Candide, ou l'Optimisme" (1759) o herói da história e seu amigo Cacambo chegam ao Eldorado onde são recebidos por um sábio ancião que os convida para jantar. Nesse encontro “a conversa foi longa e discutiram sobre as formas de governo, seus costumes, suas mulheres, e sobre as artes. Em certo momento, Candide, que tinha vocação para a metafísica, fez seu amigo Cacambo perguntar ao ancião se no país do Eldorado havia uma religião. O velho enrubesceu um pouco e exclamou: - O quê!, você duvida? Acha que somos ingratos? Cacambo perguntou humildemente qual era a religião do Eldorado. O velho corou de novo: - Será que podem existir duas religiões? Temos, creio eu, a religião de todo o mundo: adoramos a Deus, desde a manhã até a noite. Não oramos, pois nada temos para pedir, Deus nos deu tudo de que precisamos. Por isso só agradecemos, sempre." Candide manifestou a curiosidade de conhecer os sacerdotes, e perguntou onde eles estavam. O bom velho sorriu e acrescentou: - Todos nós somos sacerdotes e cantamos hinos de ação de graças todas as manhãs." (trecho do capítulo XVIII de 'Cândido, ou o Otimismo', tradução livre de minha autoria). No final da novela, Candide relembra toda a sua vida de aventuras, poucas alegrias e muitos infortúnios. Pondera com o mestre Pangloss, ferrenho otimista, sobre os eventos contraditórios deste que é o melhor dos mundos possíveis. Vai nesse passo todo o capítulo XXX. De repente, interrompendo quaisquer considerações filosóficas, o herói declara, à moda de um zen-budista, encerrando a história com a frase: "Está bem, então vamos cultivar nosso jardim" (...il faut cultiver notre jardin...)
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